Primeira

Primeira

Minha primeira vez
Foi aos 8 anos
A minha última vez
Eu já tinha 12 anos

É triste pensar, que,
Mesmo após tantos
Anos, eu ainda ouço
As palavras que ele
Dizia para mim
A sensação de impureza
Continua me perturbando
De baixo do chuveiro
Por mais que eu tente
Esquecer, o sangue que
Ele arrancou de mim
Ainda escorre pela minhas
Pernas tão frágeis
As lágrimas continuam
Molhando a fina fronha do
Travesseiro

Eu me sentia envergonhada
Por aquilo ter acontecido,
Me sentia culpada, não
Deveria ter provocada dessa
Forma
Eu corri até meu porto seguro
Eu disse para ela tudo o que
Aconteceu
Ela me disse para não reclamar
Afinal, aquele homem colocava
Comida na mesa e a minha
Roupa que vestia
Era como uma montanha inevitável
Escorregadia
Ou subia ou morria no pé dela
Foi naquele segundo que me
Senti abandonada

Aos 13 anos eu fugi
De casa
Comecei a morar na
Rua entregue ao frio, medo
E desesperança
Eu via as pessoas passarem
Com tanta pressa, elas não
Poderia cuidar de uma
Menina dá minha idade
Com trauma e sem casa ali fiquei
Passado alguns dias, alguém
Me ofereceu um emprego
Eu o aceitei, acabei me
Envolvendo com a prostituição

Agora estou aqui,
Dormindo com caras nojentos
Que repudiam suas mulheres
Apenas para ganhar um prato
De comida
Eu não posso reclamar
Mesmo que me chamem
De puta, afinal eu quis
Entrar
Mas eles não entendem e
Agradeço por isso
Pois entender tudo o que passei
Ou paço, eles teriam que viver
E isso não é o que quero
Quero que tenham um futuro
Digno como eu não pude ter
Porque acordar no lugar onde
Estou é horrível, sentir esse
Embrulho de estômago
Toda vez que alguém pega
Seus braço ou te bate por
Prazer
Eu não conhecia o amor e
Gostaria muito de ter o conhecido
Eu nem lembro como a minha
Sala de aula era, afinal já fazem
Tantos anos

E a minha realidade de
Hoje não parece querer me
Deixar ir
Quando fecho meus olhos
Eu sonho com tudo que eu
Passei e quando abro meus
Olhos vejo que nada mudou
Ninguém aqui segura sua mão
Para te puxar de volta, mas
Amam pisar nela para te ver
Cair ainda mais
Eu cheguei ao ponto de cair
De joelhos no chão rezando
Para que tirassem minha vida
Eu não acredito mais em mim
Eu nem sei sinto fé ou algo assim
O quão dolorido você acha que
Sua vida está para continuar
Implorando para que tudo melhore?

Como uma idiota
É assim que me sinto
Quando vejo o fracasso
Que me tornei, aos
Meus 10 anos eu desejei
Ser médica é que tudo
Que consigo fazer hoje em
Dia é sexo?
Eu me tornei assim porque
Nunca me deram o direto
De mudar
Eu sou assim porque eles
Nunca se importaram
Quem prestaria atenção na
Vida fácil de mais uma vadia
De esquina?
Aquela que atrai seu marido,
Aquela que tem apenas um
Corpo bonito a oferecer
Aquela que nunca vai ter
Nada de bom para dar a ninguém

Eu só queria voltar aos
Meus 7 anos
E dizer aquela garotinha:
Aproveite toda sua
Inocência

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